Um pouco de biografia

 Entrei em conta com a obra e as ideias de Mikhail Bakhtin durante minha gradução em letras. À época, havia uma transição das metodologias e abordagens dominantes na período de controle social da ditatura, como a semiótica e o estuturalismo, para tendências mais plurais, multidisciplinares como as d Bakhtin. Eu entrei em contato primeiro com o dialogismo em torno de Dostoievski, um livro que reúne análise textual e filosofia,  o que provocava muito os anseios libertários de jovens estudantes de letras cansados de estudos literários baseados em historicismo e estética clássica. 

Depois veio contato alucinante com Rabelais e o renascimento, lançando os jovens em uma vasta amplitude histórica dos gregos aos modernos, chegando a elementos míticos de base, como a carnavalização e a renovação das comunidades históricas.  A erudição da obra e sua amplitude filosófica e estética devora o leitor. 

Ainda, mais ao fim do meu curso, já desgostoso com os estudos gramaticais, que separavam compreensão da linguagem e sua criatividade, mergulhei no livro Marxismo e filosofia da linguaguem, que era de fato de seu colega Volochínov. 

Cheguei a escrever um texto sobre este livro, apresentando em um congresso, durante meu mestrado :



Bakhtin/Vygotsky: Fundamentos da Tradição do Horizonte Compreensivo do Social na Linguagem In: IX Congresso Internacional da Associação de Lingüísticae Filologia da América do Sul (ALFAL), 1990, Campinas. Anais do IX Congresso da ANFAL. Campinas: Unicamp, 1990


Por essa época pensei na ficionalização da vida e obra de Bakhtin: a ideia de um excluída, de um gênio sem lugar no seu tempo, escrevendo sozinho, isso me atraía muito, este tipo de heroísmo. Pensei mesmo em fazer meu mestrado sobre Bakhtin. Mas por sábia indicação de meu orientador Ronaldes de Melo e Souza fui estudar Bachelard. Publiquei esse texto no meu livro "Imaginação e Morte: Estudos Sobre a Representação da Finitude" (editora UnB, 2014).



Depois que entrei como professor na UnB, retomei Bakhtin várias vezes, entre elas um curso de extensão sobre o Marxismo e filosofia da linguaguem, "Teoria da linguagem e o dialogismo em M. Bakhtin", em 1997. 
Por essa época, comecei a reler Bakhtin e a crescente bibliografia crítica, entre os títulos o "Os 100 Primeiros Anos de Mikhail Bakhtin" de Caryl Emerson(2003) e o polêmico "Bakhtin desmascarado", de Jean-Paul Bronckart (2012). Os livros acima são extremos opostos entre a quase mitificação positiva e a denúncia total negativa de Bakhtin. Por essa época, começam a sair retraduções das obras de Bakhtin, feita por Paulo Bezerra, a partir de melhores edições russa, fruto do fim do regime soviético. 

Indeciso diante das incertezas da figura aparentemente ambivante de Bakhtin, deixei de lado o projeto em torno do intelectual,  ainda mais com o crescimento do autoritarismo personalista de Putin.

Durante a pandemia, a partir de contatos em Portugal, revi a ideia, agora mais clara de começar não uma obra de ficção ou um texto teatral, e sim uma ópera de Câmera, após a realização da ópera de câmera Happy Hour. Mas a rude guerra com a Ucrânia me fechou o horizonte: por que realizar uma obra sobre um autor russo em plena expansão belicosa de putnin?
Agora, com o tempo de pós doutorado, e o estudo de Wagner e Kandinsky resolve retomar o projeto Bakhtin, pois não é sobre um povo: é sobre o intelectual em nossos dias, é sobre o humor, é sobre a fragildiade da vida, é sobre a fome, é sobre o trabalho na cultura em meio a tantas dificuldades.  







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