Anotações Mikhail em Diálogo. COnversas de 1973 com Viktor DUvakin

 

CONVERSA 1


1- Lembranças da família. Casa grande. Origem nobre.

As minhas melhores lembranças são sempre ligadas à infância, na casa natal, mas também a Vilno, e àquele ginásio, e àquele edifício lindíssimo. Aquele edifício grandioso,  imponente"


[Vilnus, Vilno, captial da Lituânia. 940 km de Moscou.


EU depois me afastei completamente dos estudos clássicos , mas el [irmão de Bakhtin] permaneceu fiel até o fim . p. 33

eu estudei grego antigo 38. eu oensava em alemao. 33

TEMA DA MEMORIA

Talvez esteja a misturar as coisas na minha velhice, é possível... 39 

A minha memória está muito fraca agora, especialmente sobre os acontecimentos recentes. . . . Ainda me lembro de coisas do passado mais longínquo. . . . Sim. . . 41

D: Tens uma memória incrível!

B: "Incrível"?! Como pode dizer uma coisa destas? Quando era jovem, a minha memória era realmente fenomenal. Conseguia lembrar-me de qualquer coisa que lesse uma única vez, poesia ou prosa, não importava. Agora a minha memória foi-se, se foi mesmo...

D: Sim... Eu também costumava decorar poesia com muita facilidade.

B: Já não consigo recitar o que sabia de cor — e costumava saber muita coisa de cor, muita coisa! Prosa também. Por exemplo, sabia de cor muito de Nietzsche, bem, excertos, claro, não obras inteiras. No original, claro, em alemão. Passei também por um período de completa obsessão por Nietzsche.

D: Mas isso aconteceu depois, não é?

B: Sim, depois. Mas não muito depois. Não, na verdade, descobri Nietzsche ainda antes de Kierkegor.



Mas devo dizer que, apesar de não me poder queixar do ginásio e da universidade, aprendi sobretudo sozinho, de forma independente. É sempre assim. Porque as instituições de ensino formal nunca lhe poderiam dar a educação que deseja. Se estivesse satisfeito com o que elas ofereciam, acabaria por se tornar... um burocrata da educação. Certo... Só conheceria o passado, a história anterior do conhecimento, mas quanto ao seu estado contemporâneo, onde a verdadeira criatividade realmente acontece... Tinha de se familiarizar com o que se passa lendo os estudos mais recentes, os livros mais recentes, por conta própria. 39

Pode dizer-se que comecei a pensar de forma independente e a ler sozinho livros sérios de filosofia bastante cedo. Desde o início que achei a filosofia fascinante. E a literatura também. Li Dostoiévski quando tinha onze ou doze anos. Um pouco mais tarde, quando tinha doze ou treze anos, comecei a ler todos os textos clássicos sérios. Familiarizei-me com Kant muito cedo e li a sua Crítica da Razão Pura quando era bastante jovem. E devo dizer que consegui perceber tudo, percebi mesmo. 40


B: Ninguém, só o meu irmão, que estava lá comigo, e também começou a faculdade em Odessa.

D: Então ainda nem era um estudioso dos clássicos?

B: Não, eu já era um... Diria que era um filósofo.

D: Era mais um filósofo do que um filólogo?

B: Sim, um filósofo em vez de um filólogo. Um filósofo. E é isso que sou até hoje. Sou um filósofo. Um pensador. Em Petrogrado, isto é, Petersburgo, não existia um departamento de filosofia. O pensamento por detrás disto era o seguinte: "para quê preocuparmo-nos", diziam, "o que é a filosofia, afinal?" Nem aqui nem ali. Melhor tornar-se um especialista em alguma coisa. Portanto, havia um departamento de filosofia, mas não um independente. Se quisesse formar-se em filosofia, tudo bem, mas também tinha de se especializar em estudos russos ou alemães... 

D: Isso estava sob a alçada do departamento histórico-filológico?

B: Sim, o departamento histórico-filológico, ou dentro do departamento de estudos clássicos. Eu, por exemplo, decidi seguir o caminho dos estudos clássicos... Era preciso escolher duas áreas de estudo; não era permitido focar apenas na filosofia.

D: Não se podia formar apenas em filosofia. 

B: Não podia.

D: É assim que deve ser.

B: Eu acho que sim. Afinal, o que significa, afinal, ser filósofo? Filósofos... Na maioria das vezes, dividem-se em humanistas e naturalistas, porque alguns deles se especializam em ciências naturais — física, matemática e também filosofia, enquanto outros optam por se concentrar nos estudos humanistas. Havia outro membro da Escola de Marburg, Ernst Cassirer... 59 Provavelmente já ouviu falar dele?

44

B: Não, não só pelos clássicos. Eu era muito apaixonado pela poesia contemporânea: os simbolistas, os chamados decadentes, russos, franceses, alemães. Um dos meus amigos em Odessa — na verdade, era mais do que um simples amigo, um primo em segundo ou terceiro grau — também estudava comigo na Universidade de Odessa e tinha uma biblioteca incrível, repleta de quase tudo o que tinha sido publicado por poetas franceses. Podia utilizar a sua biblioteca e, por isso, conhecia muito bem os simbolistas franceses, os decadentes... a começar por Baudelaire... 45


B-Aliás, Zelinsky era o meu professor preferido.

D: Estudou com ele? Pessoalmente?

B: Estudei diretamente com ele. 48



B: Por causa de uma doença que contraí em criança, uma doença que basicamente me acompanha até hoje. A chamada osteomielite.

D: Ah, sim, eu sei disso. Foi por isso que perdeu a perna?

B: No final de contas, sim. Mas não quando eu era criança... Naquela altura, havia muitas cirurgias...

D: Esta doença afeta os ossos.

B: Sim, a medula óssea. Não o osso em si, mas a medula no seu interior. É uma inflamação da medula óssea. Os métodos de tratamento incluem — até hoje — cirurgia, perfuração no osso para drenar o pus.

D: Isso não é a mesma coisa que tuberculose?

B: Não, de todo. A tuberculose é pior, eu acho. A osteomielite é uma doença aguda. Uma doença aguda que frequentemente regressa mais tarde. Eu fiquei doente quando tinha nove ou dez anos, acho eu. Foi uma cirurgia muito difícil. Cortaram-me a perna até ao fim, perfuraram-me a coxa e o joelho. Estive doente durante um bom tempo, mas mesmo assim, comecei a andar logo a seguir.

D: Ainda conseguia andar depois disso?

B: Depois? Claro!

D: A sua perna foi amputada muito depois?

B: Sim, muitos anos depois, aliás, não foi há muito tempo, comparativamente falando.

D: Como é possível? Lembro-me de te ver sem uma perna antes da guerra.

B: Antes da guerra, sim. Foi amputada dois anos antes da guerra. Um pouco antes.

D: Por causa da osteomielite?

B: Sim. Ela voltou algumas vezes durante este longo período, por isso fiz mais cirurgias.

D: E a outra perna não foi afetada?

B: Tudo bem, a osteomielite não foi por aí.

D: E ainda consegue dobrá-la?

B: Consigo, mas já não consigo controlar muito bem por causa do tempo que precisei de depender apenas daquela perna. Conseguia andar muito bem, de muletas, como se estivesse com as minhas próprias pernas — conseguia correr, saltar, subir e descer, tudo o que quisesse —, mas todo o peso recaía sobre aquela perna, a saudável e... Passado um bocado, deixou de me servir... As cartilagens da articulação da anca desgastaram-se e romperam. As cartilagem não podem ser reparadas, como sabe. 50-51

CONVERSA 2

 D: Certo... Poderíamos ver este "Omphalos" como um precursor, uma espécie de versão inicial de OPOYAZ?

B: Não, não. Em termos de tempo, eram quase paralelos. Talvez "Omphalos" fosse um pouco anterior... Mas não, não, OPOYAZ era muito diferente. Muito diferente. OPOYAZ não tinha o que "Omphalos" tinha: uma atitude profunda, crítica, mas não sombriamente crítica, mas antes alegremente crítica, em relação a todos os aspectos da vida e da cultura contemporânea. Cada um tinha a sua própria área de especialização, onde residiam os seus pontos fortes. O que faziam os membros deste círculo? Escreviam paródias de vários géneros em diferentes estilos. Também realizavam conferências simuladas. Devemos notar que não satirizavam nenhum poeta ou académico em particular. Não, a paródia deles era mais ampla, no espírito, digamos, da Idade Média: uma paródia das abordagens mais sérias e sombrias da vida. Estes poetas não gostavam de seriedade, especialmente de seriedade excessiva, e esforçavam-se por mitigá-la com ironia e humor. Não eram, portanto, paródias ou estilizações de fenómenos específicos da vida, da literatura ou da ciência; não, tudo era tratado não com um ridículo severo, mas com uma espécie de humor leve e irónico. Um bom exemplo, até programático, disso é o poema do meu irmão, "Omphalos epiphales" — a tradução literal do grego seria "Omphalos manifestado, revelado". Como sabe, o termo também é utilizado no cristianismo. D: Em teologia.

...D: Então, quando entrou para aquele círculo, o senhor...

B: Não escrevi nada. Só participei em reuniões. Além disso, quando o círculo foi formado, eu ainda estava em Odessa. 59



D: Dê-nos uma ideia sobre o departamento histórico-filológico de lá em 1916, por favor? [Estive lá em] 1915, 1916 e 1917, certo?

B: ...incluindo 1917, sim. Bem, o que posso dizer? Acho que foi o auge do departamento, na verdade. Havia alguns académicos muito originais e poderosos a trabalhar lá. Não havia lá professores violadores, nem burocratas, no meu departamento. As maiores estrelas que lá conheci e tive aulas incluíam... Faddey Zelinsky. 12 ... Foi um notável estudioso da antiguidade, tradutor de obras antigas, etc. Exerceu grande influência sobre todos os classicistas da época. 60


TEMA DO GATO

. [Dirige-se ao gato] Aí estás tu outra vez, não é? [Para Duvakin] Está a atrapalhar?

D: Por favor, continue...  61


D: E aquele grupo de jovens filólogos — os linguistas que se tornaram académicos de literatura, e os académicos de literatura que se tornaram linguistas — que ficou conhecido por OPOYAZ: conheceu algum deles pessoalmente? Esteve lá durante os mesmos anos.

B: Não, não, nós circulamos por círculos muito diferentes, muito diferentes.

D: Então não conheceu o jovem Shklovsky, o jovem Eikhenbaum, nunca os encontrou? 24

B: Não, não, conheci-os mais tarde, passei a conhecê-los muito mais tarde. Não naquela altura. Quando estavam a começar com os OPOYAZ, eu não os conhecia. Familiarizei-me com o OPOYAZ depois de terminar a universidade, quando estava em Vitebsk. Só então pude ler os folhetos do OPOYAZ, que eram famosos por serem impressos em papel superfino (higiénico).

D: Eu tenho esses. Poética?

B: Não só Poética. Havia pequenos folhetos separados antes. 64



Mas, voltando ao "Ômfalo", organizávamos várias reuniões, adorávamos brincar às adivinhas... Lembro-me de como, no apartamento de alguém...

D: Então os académicos faziam charadas, não é?

B: Sim, claro, no apartamento de Srebrny, ele era mais velho do que qualquer um de nós, claro, muito mais velho... Era já um dotsent37 e dava seminários sobre poética grega antiga. Como muitos outros professores, dava estes seminários em sua casa. Era o que as pessoas faziam naquela altura. Por exemplo, os famosos seminários de Zelinsky tinham lugar no seu apartamento, onde a sua mulher também nos alimentava com deliciosos pirozhki38. Por isso, sim, costumávamos ter aulas na casa de Srebrny, depois algumas pessoas que não eram muito próximas dele iam embora logo a seguir, enquanto o resto de nós, o seu círculo íntimo, ficávamos para trás, tomávamos chá e brincávamos às charadas. Lembro-me de um deles — tivemos de encenar o nome “Burliuk”. 39 A primeira parte da palavra, “bur” [Boer], o meu irmão representou-a brilhantemente: segurava a Bíblia numa mão e uma arma na outra, numa palavra, um Boer estilizado. 68




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