MATERIAIS SOBRE A DEFESA DA TESE SOBRE RABELAIS

 http://nevmenandr.net/dkx/?y=1999&n=2&abs=DELOVAK

http://nevmenandr.net/dkx/?y=1999&n=2&abs=DELOVAK


Diálogo. Carnaval. Cronotopo”, 1993, n.º 2-3,




Artigo

GRILLO, Sheila. Do livro à tese de Bakhtin sobre Rabelais (1930-1952): projeto, contexto, desfecho. ALFA: Revista de Linguística, São Paulo, v. 66, 2022. DOI: 10.1590/1981-5794-e15167. Disponível em: https://periodicos.fclar.unesp.br/alfa/article/view/15167. Acesso em: 17 jul. 2025.


-  A defesa da tese de doutoramento “F. Rabelais na história do realismo” [Ф. Рабле в истории реализма] diante do comitê científico6 do IMLI aconteceu em 15 de novembro de 1946.
- Apesar de a publicação do livro não acontecer, os contatos feitos durante essa empreitada auxiliaram na proposta de sua transformação em tese, cujo processo foi apresentado por M. Bakhtin à seção de Literaturas Ocidentais do Instituto da Literatura Mundial Maksím Górki (IMLI), em 28 de junho de 1946.
-
- Chichmarióv (BAKHTIN, 2008) abre a sessão com a definição de que será julgada a outorga do título de doutor [степени кандидата] em ciências filológicas a M.M. Bakhtin sobre o tema “Rabelais na história do realismo” e informa que os três membros oficiais são os livre-docentes em ciências filológicas Smirnóv, Nucínov e Djiveliégov.

Bakhtin apresenta um resumo da tese
Depois é arguido.

1-  Terminada a fala de Bakhtin, o presidente do comitê científico passa a palavra a Smirnóv que propõe ao comitê avaliar o trabalho como uma tese de livre-docênci
2- Djiveliégov acrescenta sua discordância com a ambivalência aguda do tema do baixo material e das sanções; avalia que Bakhtin conseguiu mostrar o processo de encarnação da natureza popular na ideologia renascentista; critica o fato de Bakhtin não ter conseguido incluir a atmosfera de condenação de hereges à fogueira no século XVI; e termina com a recomendação de publicação do trabalho e com sua concordância de que a tese merece o título de livre-docente.


3- Na arguição seguinte, Maria Teriáeva37 faz diversas críticas ao trabalho de M. Bakhtin. Primeiramente, aponta a falta de uma caracterização do realismo e do lugar de Rabelais na história do realismo. Em segundo lugar, critica a ausência, na tese, da abordagem sobre o realismo feita pelos grandes teóricos da literatura russos e soviéticos – Guértsen, Belínski, Dobroliúbov, Tchernichévski, Lênin e Stálin. Em seguida, aponta a ausência de uma abordagem política soviética da teoria da literatura e novamente cita Belínski, Dobroliúbov, Tchernichévski, Lênin e Stálin. Na sequência, critica a ausência de uma definição do realismo gótico. Depois, dedica uma grande parte de sua apresentação à discordância da abordagem de Gógol feita por Bakhtin, tomado como um continuador da cultura popular, festiva e do riso – a qual Teriáeva considera uma simplificação formal do fenômeno estudado por Bakhtin -, pois, para ela, Gógol percebeu a essência e a luta de classes. Ainda criticando a falta de uma abordagem de classes, Teriáeva avalia que o trabalho deve ser integralmente refeito, pois sofre de uma falha metodológica em que a biologia desempenha um papel enorme, bem como apresenta uma compreensão idealista do materialismo dialético. Por fim, citando a arguição de Nucinov, Teriáeva afirma que a proposta de outorga do título de “livre-docente” contradiz todas as críticas feitas à tese.

    Durante sua avaliação, Teriáeva ataca não só a tese de Bakhtin, mas também os pareceres dos membros oficiais e não oficiais do comitê científico, por isso, na sequência do estenograma, Kirpótin toma a palavra para propor que os mencionados integrantes do comitê científico possam também participar.

1-Nikolai Piksánov , negativo; 2- Nikolai Bródski, negativo; 3- Dmitri Mikháltchi:positivo. 4-Ióssif Finkelchtein: positivo 5: Evguéniia Dombrovskaia , negativo.


Evguéniia Dombrovskaia46 afirma não ter lido o trabalho na íntegra e sua fala é uma série de críticas à tese: acusa Bakhtin de desconsiderar o aspecto satírico em Rabelais, assevera que Rabelais não é um herdeiro da Idade Média, cita Engels para defender que o Renascimento é uma superação da Idade Média, nega que as obras de Gógol “Tarás Bulba” e “Almas mortas” sejam saturnálias e, por fim, afirma que essas obras não são uma imitação da literatura ocidental.


Em primeiro lugar, Djiveliégov afirma em polêmica aberta que é preciso ler a tese para poder fazer críticas; considera infundada a acusação de que não há luta de classes no trabalho, pois o riso popular é luta contra o poder feudal. A seguir, Smirnóv, em tom mais diplomático, acentua o caráter original e inovador da tese, para finalizar, de modo tático, que concorda com tudo o que foi afirmado pelos membros, mas que essas afirmações não se aplicam ao trabalho de Bakhtin. Depois, Nucinov toma a palavra pela segunda vez para defender que há luta de classes na tese de Bakhtin e que essa luta consiste na oposição ao feudalismo, concluindo que: “Diante de mim está um trabalho que não pode ser comparado a outros, aos quais outorgaram o grau de livre-docente aqui, neste auditório. Não retiro minha proposta de outorgar ao camarada Bakhtin, por seu trabalho, o título de livre- docente.”47 (BAKHTIN, 2008, p. 1048).
 
Na sequência, em sua breve fala, Borís Zaliésski50 expressa sua impressão da defesa: “Ao ouvir atentamente a discussão, concluí que aqueles que conhecem bem o trabalho manifestaram-se de modo positivo, já aqueles que se expressaram de modo negativo reconheceram abertamente não tê-lo lido”5

Respostas de Bakhtin


1) Ao retomar o adjetivo de Djiveliégov, Bakhtin se reconhece como um “inovador obsessivo” [одержимый новатор] (BAKHTIN, 2008, p. 1054);


2) Enfatiza que a tradição gótica pode ser observada em revolucionários russos, pois “A essência de qualquer pensamento, e sobretudo do pensamento revolucionário, não está no isolamento, na separação do restante do mundo, mas na sua relação orgânica profunda com tudo o que há de progressista no mundo.”53 (BAKHTIN, 2008, p. 1059);


3) Está consciente de que: “Eu mostro Rabelais na história do realismo. Talvez eu esteja enganado, mas eu introduzi uma nova página na história do realismo”54 (BAKHTIN, 2008, p. 1060) e recusa-se a recontar a história do realismo – cobrada por Maria Teriáeva – pois considera que seria uma repetição do já sabido;


4) O riso não foi o único meio de resistência do povo na Idade Média: “Não era em absoluto minha intenção considerar o riso como algo alegre, desinteressado e feliz. Ele foi uma das armas mais poderosas de luta. O povo lutou tanto com o riso quanto com armas de fogo, punhos e bastões.”55 (BAKHTIN, 2008, p. 1061)


5) Rabelais é uma nova consciência e ao mesmo tempo permite descobrir a tradição. “Seria possível separar a questão [revolucionária, S. G.] da consciência, da palavra e do pensamento? Questões revolucionárias seriam possíveis sem a palavra?”56 (BAKHTIN, 2008, p. 1062)


6) O riso medieval preparou o Renascimento: “O riso liberta do medo, e esse trabalho do riso de libertação do medo é o pressuposto necessário para a consciência renascentista em geral.”57 (BAKHTIN, 2008, p. 1062)


7) Carnaval não é alegre: “Eu não concebi o carnaval como algo alegre. De modo algum. Em toda imagem do carnaval está presente a morte. Falando nos termos de vocês, trata-se de uma tragédia. Mas a tragédia não é a última palavra.”58 (BAKHTIN, 2008, p. 1063)


8) Afirmação do revolucionário: “meu trabalho é profundamente revolucionário, segue adiante e apresenta algo novo. Todo o meu trabalho fala do mais revolucionário escritor – Rabelais”59 (BAKHTIN, 2008, p. 1064) ; “Considero que o povo, em cujas tradições Rabelais cria, é profundamente progressista. (...) Penso que eu soube mostrar o caráter profundamente progressista e revolucionário da consciência do carnaval, da consciência da unidade, da unidade temporal física.”60 (BAKHTIN, 2008, p. 1065)
 

Terminada a fala de M. Bakhtin, o comitê científico composto por 13 integrantes, se reúne para votar primeiramente a outorga do título de doutor – resultado: 13 a favor e nenhum contra – em seguida a de livre-docente – resultado: 7 a favor e 6 contra. Kirpotin faz a síntese final:



Desse modo, o Conselho Científico outorga o título de doutor em ciências filológicas ao camarada Bakhtin M. M. e dirige-se ao Ministério da Escola Superior com o requerimento de outorga do título de livre-docente em ciências filológicas. Portanto, considero encerrada a sessão do Conselho Científico.61 (BAKHTIN, 2008, p. 1066).

Com isso, o Conselho Científico aprova por unanimidade a outorga do título de doutor, mas, apesar de a votação ser majoritária também a favor do título de livre- docente (7 a 6), o Comitê deixa a decisão final para uma instância acima, no Ministério da Escola Superior, etapa que será analisada a seguir.


A decisão final é devolver o trabalho para que M. Bakhtin o reelabore e o reapresente à comissão de especialistas

Respostas de Bakhtin


1) Declara que “Todo o objetivo e toda a finalidade do meu trabalho é revelar a época do Renascimento!”76 (BAKHTIN, 2008, p. 1096);


2) Em relação à cultura popular e ao Renascimento, “Eu [os] abordei do ponto de vista da cultura não oficial e popular, pois só a partir dela é possível compreender escritores democráticos do Renascimento, tais como Rabelais”77 (BAKHTIN, 2008, p. 1096); “Não se trata de imagens “fisiológicas grosseiras”, mas de uma arma poderosa do povo, de criticismo popular.”78 (BAKHTIN, 2008, p. 1097); “Muitas vezes declaramos e citamos passagens de Lênin sobre a cultura não oficial presente em todos os povos; porém é preciso ir adiante: é necessário revelar essa cultura não oficial”79 (BAKHTIN, 2008, p. 1097);


3) Quanto a Gógol: “Reconheço que foi inconveniente abordar Gógol de modo secundário e retirarei essas três páginas. Contudo, é possível definir a avaliação de todo o meu trabalho por essas três páginas!”80 (BAKHTIN, 2008, p. 1098) e acrescenta “Não deduzi Gógol de Rabelais ou de fontes ocidentais. Afirmo que é preciso estudar Gógol, estudar esse riso não estudado, que se conecta com a academia espiritual, com os bursacos81, aos quais Gógol estava ligado.”82 (BAKHTIN, 2008, p. 1098).

4) Assim como todos os trabalhos do início dos anos 1940, Bakhtin declara que seu trabalho precisa de reformulações após 9 anos, mas que está convencido de que sua proposta continua extremamente atual.





Onze meses após essa audiência de Bakhtin, uma carta de Bakhtin ao secretário científico da VAK, datada de 15/04/1950 (BAKHTIN, 2008), relata detalhadamente as alterações realizadas na tese de livre-docência e informa que esta segue anexa. A seguir os principais pontos do relato de Bakhtin:


1) Escrita de uma introdução ao livro (ela não existia antes) que revela o problema fundamental do meu trabalho à luz da doutrina de V. I. Lênin sobre as duas culturas nacionais em cada cultura nacional e apresenta uma definição preliminar da cultura popular não oficial na Idade Média e no Renascimento.


2) Realizadas uma crítica de base das visões gerais de A. N. Vesselóvski sobre a obra de Rabelais (p. 34-37), bem como críticas pontuais a questões particulares (p. 137-139, 206-207 e 215).


3) Introduzida uma crítica de caráter mais fundamental e combativa dos estudos rabelaisianos burgueses.


4) Escrita de aproximadamente 90 páginas (em diversas partes do trabalho), com o objetivo de dar mais nitidez e força metodológica à revelação do conteúdo de classe e revolucionário presente no conteúdo da cultura popular do passado e sua distinção da cultura oficial (isto é, da cultura das classes dominantes);

(...)

5) Retiradas do livro as páginas dedicadas à criação de N. V. Gógol, em razão de conterem formulações imprecisas e em razão de o tratamento secundário e superficial da obra de N. V. Gógol no livro sobre Rabelais estar fora de lugar;


6) De acordo com a indicação da Comissão de especialistas, o termo inadequado “realismo gótico” foi substituído pelo termo “realismo grotesco” (esse termo tem, é claro, um caráter convencional); foi um pouco mudado (também por indicação da Comissão de especialistas) o título do trabalho: no lugar de “Rabelais na história do realismo” o trabalho agora intitula-se “Rabelais e o problema da cultura popular na Idade Média e no Renascimento (...)85 (BAKHTIN, 2008, p.1104-1105).


Em parecer
, Samarin sentencia não poder o trabalho ser considerado uma pesquisa que atende aos requisitos de uma tese de doutorado e elenca os seguintes problemas:


1) Bakhtin trata o realismo na obra de Rabelais como uma manifestação do naturalismo, o que seria precoce para Idade Média e Renascimento europeus;


2) Bakhtin não compreendeu a arte popular dos séculos XV e XVI, mas as abordou do ponto de vista das tendências naturalistas, ou seja, dos seus meios grosseiros e exteriores de representação;


3) Bakhtin utiliza terminologia e estilo indelicados, obscuros, confusos e inadmissíveis, referindo-se à abordagem do baixo material e corporal;

4) Do ponto de vista metodológico, Bakhtin não realiza uma abordagem histórica da obra de Rabelais nem uma análise marxista-leninista do movimento popular libertador na França do século XVI. A esse respeito, vale reproduzir o seguinte excerto: “No trabalho não há base histórica concreta, disso decorre a sua abstração formalista, colorida por uma tendência fisiológica desagradável, o que infelizmente obriga a lembrar das conjecturas reacionárias freudianas da “teoria literária”.”87 (BAKHTIN, 2008, p. 1111).


5) “na tese de M. M. Bakhtin Rabelais é estudado fora da luta literária de sua época. M. M. Bakhtin quase não cita em seu livro outros notáveis escritores franceses da época de Rabelais, uma plêiade inteira de escritores e poetas- satíricos, que Rabelais encabeçou”88 (BAKHTIN, 2008, p. 1111-1112).


6) O importante problema da cultura popular na Idade Média é apenas proposto e não realmente trabalhado como a tese exigiria, em razão da falta de uma análise marxista-leninista do surgimento e formação da nação francesa.



A decisão final, pela qual Bakhtin esperou de 15/11/1946 a 31/05/1952 (5 anos, 5 meses e 20 dias), foi: “Outorgar a Bakhtin M.M. o diploma de doutor em ciências” (BAKHTIN, 2008, p. 1118)90.







Segundo Pankóv (2010), em decorrência das acusações da VAK, o nome de Bakhtin tornou-se “proibido” e retornou ao mundo científico apenas após a publicação em 1963 do livro “Problemas da poética de Dostoiévski”.




Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

Maria Yudina. música. e impacto

Revista NOTAS DE UM TEATRO ITINERANTE